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Brussels
by august
Hoje Bruxelas acordou soalheira e o evento,
por raro, deu-me vontade de escrever qualquer coisinha.
Amo Bruxelas em Agosto. Desterro cinzento
ao longo do ano, ilha deserta onde a jangada encalhou a páginas
tantas da vida, em Agosto é como se o resto do ano
(das décadas de expatriação) fossem pesadelo
de que se acorda moído e angustiado para o alívio
de uma realidade bem menos atormentada.
Bruxelas ao sol é como casa pintada
de fresco, como cidade pronta para receber jogos olímpicos.
Desaparecem a negrura das fachadas tristes, as nódoas
do uso sem amor, a imundície do descuido dos cães
e do desapego das gentes. Os belgas tristonhos desaparecem
nas férias e os que ficaram animam-se. Os milhares
de expatriados e imigrantes tornam-se turistas de ombros libertos
dos encargos e da saudade, como se o Sol que nos aquece agora
a alma fosse o mesmo que Lá deixámos. E que
quando nos visita aqui apetece receber com refeições
à esplanada, num abraço quente de família
reencontrada.
Nas praças de Bruxelas, em Agosto,
nascem palcos e improvisam-se recintos de festas, onde os
sem-abrigo, desempoeirados e bem dormidos, nos acolhem como
anfitriãos aos seus velhos conhecidos. Partilha-se
então música, conversa, noitadas de copos e
gargalhadas, que quase nos fazem alucinar um outro futuro.
Gosto de trabalhar em Agosto. O percurso
habitual na confusão do trânsito e das multidões
transforma-se, em Agosto, num passeio descontraído
entre compagnons de route, as imprecações
e azedumes transfiguram-se em cumprimentos afáveis
e sorrisos cúmplices. Deixam-se em casa as personagens
de circunstância e as gravatas, as hierarquias esbatem-se,
os horários desleixam-se, os telefones calam-se de
encomendas e urgências. O trabalho torna-se ocupação
de tempos livres, o escritório sala de estar, as tarefas
urgentes prazeres de amador, os projectos aventuras exploratórias,
o computador caderno de viagens, os emails postais de férias.
Amo Bruxelas e gosto de trabalhar em Agosto.
Pena a nossa desgraçada incompetência para fazermos
com que Agosto seja quando a gente quiser.
Paz, 3.8.2005
PS. Disse eu que Bruxelas acordou ensolarada.
Às 3 enegreceu, às 5 desabou água. Não
faz mal. Setembro ainda vem longe.
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