Rua da Paz . Net Inspirações Atelier


Diários californianos

A minha rua
A melhor prenda do ano
Para o ano
Ao meu filho
1954
NO WAR
One way sight
Local de trabalho
Kando fôr velhota...
O povo é quem mais ordena
Brussels by august
Pablo, Pablo y el gato
Semana aziaga
1 de Maio
7 de Novembro
25 ruedeLaVilette
Ruas da Paz

Ligações

SILO
Agrafo
Le monoclete
Estado Civil
D'une vie l'autre
rimbaud-arthur
L'horloge
La boîte à images
Silence Radio
Coconino World
Winsor McCay
It's Jerry Time!
hippyland
O site mais mal disposto do Universo
 
(outras em breve)

 

 
Brussels by august

Hoje Bruxelas acordou soalheira e o evento, por raro, deu-me vontade de escrever qualquer coisinha.

Amo Bruxelas em Agosto. Desterro cinzento ao longo do ano, ilha deserta onde a jangada encalhou a páginas tantas da vida, em Agosto é como se o resto do ano (das décadas de expatriação) fossem pesadelo de que se acorda moído e angustiado para o alívio de uma realidade bem menos atormentada.

Bruxelas ao sol é como casa pintada de fresco, como cidade pronta para receber jogos olímpicos. Desaparecem a negrura das fachadas tristes, as nódoas do uso sem amor, a imundície do descuido dos cães e do desapego das gentes. Os belgas tristonhos desaparecem nas férias e os que ficaram animam-se. Os milhares de expatriados e imigrantes tornam-se turistas de ombros libertos dos encargos e da saudade, como se o Sol que nos aquece agora a alma fosse o mesmo que Lá deixámos. E que quando nos visita aqui apetece receber com refeições à esplanada, num abraço quente de família reencontrada.

Nas praças de Bruxelas, em Agosto, nascem palcos e improvisam-se recintos de festas, onde os sem-abrigo, desempoeirados e bem dormidos, nos acolhem como anfitriãos aos seus velhos conhecidos. Partilha-se então música, conversa, noitadas de copos e gargalhadas, que quase nos fazem alucinar um outro futuro.

Gosto de trabalhar em Agosto. O percurso habitual na confusão do trânsito e das multidões transforma-se, em Agosto, num passeio descontraído entre compagnons de route, as imprecações e azedumes transfiguram-se em cumprimentos afáveis e sorrisos cúmplices. Deixam-se em casa as personagens de circunstância e as gravatas, as hierarquias esbatem-se, os horários desleixam-se, os telefones calam-se de encomendas e urgências. O trabalho torna-se ocupação de tempos livres, o escritório sala de estar, as tarefas urgentes prazeres de amador, os projectos aventuras exploratórias, o computador caderno de viagens, os emails postais de férias.

Amo Bruxelas e gosto de trabalhar em Agosto. Pena a nossa desgraçada incompetência para fazermos com que Agosto seja quando a gente quiser.

Paz, 3.8.2005

PS. Disse eu que Bruxelas acordou ensolarada. Às 3 enegreceu, às 5 desabou água. Não faz mal. Setembro ainda vem longe.



Manifesto da Web independente